O futebol brasileiro entrou em uma fase de números históricos, mas também de cobrança inédita sobre gestão. Clubes arrecadam mais, contratam mais, vendem mais jogadores e ocupam um espaço econômico cada vez maior. Ao mesmo tempo, parte importante da elite nacional ainda carrega desequilíbrios que podem se tornar um problema sério com a chegada definitiva das novas regras de sustentabilidade financeira.
É esse contraste que aparece no Relatório Convocados 2026, produzido pela Convocados Gestão e Futebol e pela Outfield, com apoio da Galapagos Capital. O levantamento mostra um futebol em expansão, mas alerta que, se os critérios finais do fair play financeiro já estivessem plenamente aplicados, quase metade dos clubes da Série A não passaria na avaliação.
A análise tem como base o Sistema de Sustentabilidade Financeira, o SSF, criado pela CBF e fiscalizado pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a ANRESF. O modelo foi desenhado para acompanhar se os clubes mantêm obrigações em dia, equilíbrio operacional, controle de gastos com elenco e níveis administráveis de endividamento.
As punições previstas pelo sistema podem variar conforme a gravidade do caso. Entre as medidas possíveis estão advertências, multas, perda de pontos, restrições para registro de atletas e, em situações extremas, até rebaixamento.
O próprio relatório, porém, faz uma ressalva importante. A avaliação não tem caráter oficial e não representa uma decisão da ANRESF. Como os clubes ainda não divulgam todas as informações no formato exigido pelo SSF, os autores criaram uma faixa intermediária para situações em que não há dados suficientes para uma conclusão definitiva. Por isso, o estudo funciona como uma leitura preliminar do tamanho do desafio que os clubes terão pela frente.
**A divisão dos clubes no estudo**
Na simulação conduzida por Cesar Grafietti, apenas sete clubes seriam aprovados sem ressalvas nos critérios finais do sistema: Bahia, Flamengo, Fluminense, Juventude, Mirassol, Palmeiras e Red Bull Bragantino.
Outros quatro aparecem em uma zona intermediária, classificados como “aprovados com dúvidas”: Cruzeiro, Santos, São Paulo e Vitória. Nesses casos, a falta de informações completas impede uma avaliação totalmente fechada.
Já Atlético-MG, Botafogo, Ceará, Corinthians, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Sport e Vasco aparecem como reprovados na fotografia feita pelo relatório.
Na prática, o resultado indica que 45% dos clubes da Série A não atingiriam os parâmetros da fase definitiva do fair play financeiro. O ponto de maior reprovação foi o equilíbrio financeiro, tratado como um dos pilares do novo modelo de controle.
**Receitas em alta, dívidas também**
O estudo mostra que o futebol brasileiro vive uma expansão sem precedentes. As receitas cresceram puxadas por transferências de atletas, patrocínios, contratos comerciais e participações em competições internacionais.
Esse avanço também se refletiu nos investimentos em elenco. Apenas em 2025, os clubes aplicaram R$ 4,4 bilhões em elencos profissionais, marcando o segundo ano consecutivo de recorde em gastos com contratações.
O problema é que o aumento da arrecadação não veio acompanhado, em todos os casos, de maior equilíbrio nas contas. As despesas continuaram subindo, e o endividamento consolidado dos clubes chegou a R$ 17,3 bilhões.
Segundo o levantamento, boa parte dessa pressão vem de obrigações operacionais relacionadas à compra de jogadores e a compromissos financeiros assumidos nos últimos anos.
O retrato é paradoxal: o futebol brasileiro nunca movimentou tanto dinheiro, nunca investiu tanto em atletas e nunca teve tanta capacidade de gerar caixa. Ainda assim, muitos clubes seguem pressionados por dívidas, despesas crescentes e dificuldade de manter uma operação financeiramente sustentável.
**Mirassol vira exemplo inesperado**
Entre os pontos positivos do relatório, o Mirassol aparece como um dos casos mais chamativos. Recém-estabelecido na elite do futebol nacional e sem o mesmo poder econômico dos grandes clubes, o time do interior paulista surge entre os aprovados no SSF.
O desempenho chama atenção justamente por fugir da lógica dos gigantes. O clube apresentou crescimento relevante de receitas, EBITDA positivo, geração de caixa consistente e uma condição rara no futebol brasileiro: mais recursos disponíveis do que dívidas.
O relatório classifica o Mirassol como “aplicador líquido”, expressão usada quando o caixa supera o passivo financeiro. As demonstrações financeiras do clube também foram publicadas sem ressalvas.
A consistência fora de campo acompanha a eficiência esportiva dos últimos anos. Mesmo distante das receitas dos maiores centros, o Mirassol conseguiu combinar competitividade com controle financeiro, tornando-se uma das referências positivas do estudo.
**O que muda com o fair play financeiro**
A implantação plena do SSF pode alterar a lógica de funcionamento dos clubes brasileiros. O sistema cria limites para gastos com elenco, exige maior compatibilidade entre receitas e despesas e estabelece mecanismos para conter dívidas de curto prazo.
Na fase definitiva das regras, clubes da Série A não poderão gastar mais de 70% das receitas com elenco. Também não poderão ter dívidas de curto prazo acima de 45% da arrecadação.
Esses critérios tendem a pressionar diretorias a reverem a forma como contratam, renovam contratos, assumem dívidas e projetam receitas futuras. O objetivo é impedir que o crescimento do futebol seja sustentado por desequilíbrios que comprometam a operação dos clubes no médio e longo prazo.
A mensagem central do relatório é que arrecadar mais não basta. Em um ambiente com regras mais rígidas, o sucesso dependerá cada vez menos apenas do tamanho da torcida, da tradição ou do volume de contratações.
A nova fronteira do futebol brasileiro será a capacidade de transformar dinheiro em gestão eficiente. Para alguns clubes, o fair play financeiro pode ser apenas uma adaptação. Para outros, pode representar uma mudança profunda no modo de sobreviver na elite.
